Aconchegava-se em meu colo
o silêncio
aquele silêncio
um regurgitar
o vômito avisado
deixar coisas perenes
o amor de horas marcadas, acertadas.
a cadeira inerte, desocupada
o sono resignado do filho
quitar as contas
o horário do fármaco
a estrutura prestes à implosão
e eu olhava
eu olhava
uma pausa
último cerrar de pálpebras.

antes que tudo desabe sobre mim.
não tinha coragem de olhar para os lados.
estava deitada e ouvi a chave na porta.
seus passos vieram até a beirada da cama e ele disse
- ana.
- não quero levantar, respondi.
- está sentindo dores ou acha que o mundo vai acabar?
- o mundo vai acabar.
silencio.
deitou-se e me enlaçou com os braços e pernas.
era a cidade que não me tocava
me fitava somente
com olhos frios e brancos
e altos e gélidos
eu pedia um abraço à sua planura
e ela respondia com um asovio por entre as folhas
as folhas secas que tentavam viver sob meus pés
continuava tentando compreender seus silêncios
seus vazios
seus espaços vagos
suas quinas escuras
as ruas sem fim
aquele lugar sem nó se opunha à tudo que eu sentia
não nos penetrávamos.


havia eu.
e havia ela.
eu aguardava notícias do front
como quem sabe que nada de bom há de vir
desse lugar
mas espera. 
mas espera...
e um silêncio vinha a todo momento
dizer aquilo que eu temia.
não há noticias.
aquele lugar ainda é o mesmo.
o mesmo eixo
o mesmo tudo.
mas eu
continuo esperando.

algo novo.
o nó
era a coisa que apertava a garganta
o que não era engolido
o indigesto
um acúmulo de vozes
pessoas
sons
lugares
era um nó
um enforcamento
que permitia ainda
alguma passagem de ar
para que o silêncio
nao fosse  c o m p  l  e   t   o.
um dia
depois o outro
um dia
depois do outro.
a ordem esquizofrênica das coisas
perdera todo o sentido
um sentido que não existia aos meus olhos.
rotina era só um nome que se dava à loucura
para que não tivessemos medo dela.
arrancava pedaços de pele enquanto escrevia
sangrava um sangue ralo
de odor peculiar,

estou pensando numa forma de dizer
uma forma de elaborar o cansaço
uma forma burra
portanto fácil
tangível.
talvez continue socando os muros
e me esfregando um pouco neles
enquanto não compreendo
esse desencontro de quereres sem fim.
eu tinha uma pele que evitava o mundo
como se não fosse designada ao contato
ao toque
ao beijo
eu era revestida por uma lixa flexível
que inflamava a qualquer sinal de insatisfação.
e recusava veementemente
meu lado de dentro.
O corpo todo
era morada de estranhos.
eu sentia a cabeça coçar
e, desatenta, arrancava pedaços do couro
secretamente ia ao espelho
e via o tempo se depositando
silencioso
no canto dos olhos.
um desgosto irracional
que não passa pelo crivo
pelo critério
ou cerimônia
um desgosto.
não encarar no olho
a briga velada das almas
grito calado no protocolo
sussurros de ouvido
guizo pendurado nos pés

eu ouço teu barulho quando andas.