despertei
havia areia em minha boca
areia não. eram os dentes desfeitos em mastigação. gosto metálico. era sangue. havia começado a morder a língua e sentia pedaços de carne nos dentes.
antropofagia.
se eu nao coubesse em mim, uma digestão se fazia necessária. presente.
tentei cuspir, escarrar, vomitar. a coisa não saía.
meus dedos não iam para além dos lábios.
o lado de dentro fora interditado.
nada entra. nada sai.
engoli como se engole o xarope amargo para tosse.
o quiabo do prato de alumínio
o sal de frutas fervendo no copo
havia mil unhas em minha garganta
e não havia mais dentes.
e não havia mais dor
e não havia mais eu.
um escalpo escuro sobre o piso branco.